A única coisa que sei é que essas duas mulheres cruzaram a minha vida ao mesmo tempo. De um momento, eu tomei conhecimento de sua força. Elas, porém, mesmo que contemporâneas, nunca souberam da existência uma da outra.
Firenze, da outra vez o que mais me impressionou, mexeu com meus sentidos, foi Caravaggio. Até hoje estou sob esse impacto sentido em 1991. Assim, desta vez pude ater-me com emoção aos seus contemporâneos e aos chamados caravagistas. Artemisia Gentileschi (1593-1652) estava lá na outra vez em que estive na Galleria degli Uffizi, mas seus quadros de luz e temas fortes não se imprimiram em minha memória. Uma mulher pintora em um mundo de homens. A possibilidade de aprender o ofício se deu no atelier de seu pai Orazio Gentileschi, sensível ao talento precoce de Artemisia. Ela fez uma carreira, com dificuldade e discriminação.
Artemisia Gentileschi, nesse site é possível ver quadros seus espalhados em vários museus.
Portugal, numa livraria encontrei um romance, entre os mais vendidos, Ginga, Rainha de Angola, escrito por Manuel Ricardo Miranda, que serviu ao exército português nos anos 1960, na guerra colonial, e conheceu um descendente da rainha Nzinga Mbandi Ngola (1581-1663), a quem os portugueses chamaram Ginga. Esta mulher foi uma guerreira e lutou pela defesa de suas terras e de seu povo. O livro é mal escrito e mal cuidado, tem vários erros de continuidade. Mas para além da falta de talento de seu autor, foi uma possibilidade de compreender um pedacinho da história, mesmo que romanciada, fascinante e trágica dos angolanos. Tão ligada a nossa própria, nesses anos em que a escravidão corrente em Angola foi mercantilizada pelos portugueses, para servir ao plantio de cana-de-açúcar no Brasil.
Ginga e Artemisia me trouxeram à memória uma outra contemporânea, Aphra Behn (1640-1689), considerada a primeira escritora profissional inglesa. Li há anos seu romance Oroonoko, passado no Suriname, envolvente e trágico, como toda história de escravidão.
Aphra Behn. Oroonoko ou O Escravo Real. Romance. Tradução e introdução por Élvio A. Funck. Ed. Mulheres, Florianópolis, 1999. 128 p.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Oroonoko
Essa mulherada mexe comigo!
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